Bordado à mão: bastidores, tensão do tecido e a construção dos pontos
O Sesteza é um caderno de oficina escrito em texto corrido. Reúne o que se aprende a montar um bastidor, a esticar um tecido, a puxar uma linha até o ponto assentar e a tratar da peça depois do último nó.
Os textos deste site descrevem técnicas, materiais e formas de trabalho. Não há aulas, encomendas nem venda de materiais — apenas material de leitura, aberto e igual para quem chegar.
O que está reunido nestas páginas
Cada secção trata de uma parte concreta do trabalho de bordar. A ordem segue o percurso habitual de uma peça: primeiro o suporte e a tensão, depois os pontos e as linhas, e por fim a lavagem, a montagem e a arrumação.
Bastidores e teares: escolher o suporte antes do primeiro ponto
O suporte decide mais do que parece. Um bastidor redondo de madeira, com aro interior e aro exterior fechado por parafuso, serve para quase todo o bordado livre de tamanho médio: agarra bem o linho e o algodão, é leve e permite rodar a peça a meio de um motivo. Os modelos de plástico com aro flexível seguram tecidos finos sem os marcar tanto, mas perdem tensão mais depressa em trabalhos longos.
Quando o motivo ultrapassa o diâmetro do aro, vale mais montar a peça num quadro de tensão: duas travessas com fita onde o tecido se cose e duas laterais que se afastam com cavilhas. O tecido fica plano, a tensão distribui-se pelos quatro lados e nada passa por cima dos pontos já feitos — condição prática para bordado a ouro, para superfícies grandes de ponto cheio e para peças que vão demorar semanas.
Escolher o tamanho
O aro deve ser maior do que a área a bordar, para que a madeira nunca assente sobre pontos terminados. Em peças compridas, é preferível mudar de bastidor a esmagar um preenchimento já feito. Um aro de 15 a 20 cm cobre a maioria dos motivos pequenos e continua a ser confortável de segurar com uma mão durante uma hora.
Forrar o aro interior
Enrolar o aro de dentro com fita de algodão, em espiral e sem sobreposições grossas, aumenta o atrito e reduz a marca deixada no tecido. É um passo rápido que se nota sobretudo em sedas e linhos finos.
Tensão do tecido: o gesto que sustenta todo o resto
Um ponto torto raramente é culpa da agulha. Quase sempre o tecido cedeu de um lado, o fio da teia ficou puxado em diagonal e o desenho acompanhou o desvio. A tensão certa é a que mantém a grelha do tecido direita e igual em toda a área de trabalho, sem esticar as fibras ao ponto de as deformar.
Em ponto cheio, em bordado contado e em qualquer superfície de brilho contínuo, o tecido deve ficar firme como a pele de um tambor. Em trabalhos com relevo ou com aplicações, uma tensão ligeiramente mais suave dá margem para o volume assentar sem repuxar o fundo.
Montar o bastidor por etapas
- Centrar o motivo sobre o aro interior antes de fechar o parafuso.
- Alinhar os fios da teia e da trama com os lados do aro, olhando o tecido à contraluz se necessário.
- Puxar o tecido aos pares opostos — cima e baixo, depois esquerda e direita —, nunca à volta e sempre com pouca força de cada vez.
- Apertar o parafuso em duas ou três voltas curtas, verificando a tensão entre elas.
- Bater com a unha no centro: o som deve ser seco e igual em qualquer ponto da superfície.
- Retirar a peça do bastidor no fim da sessão, para que a marca do aro não fique gravada no tecido.
A tensão perde-se com o uso, sobretudo em algodões macios. Voltar a ajustar a meio de uma sessão é normal e não estraga nada, desde que o tecido seja puxado pelas margens livres e não por cima do bordado. Se houver excesso de tecido a sobrar do aro, alinhavá-lo para trás evita que fique torcido debaixo do braço.
Bordado contado e bordado livre
As duas famílias usam as mesmas agulhas e muitas vezes as mesmas linhas, mas partem de lógicas opostas: numa, o tecido dita a escala; na outra, o desenho dita o percurso. Reconhecer em qual se está a trabalhar evita metade das hesitações.
Contado: o tecido decide a escala
Em tela aida ou em linho de fios contáveis, cada ponto ocupa um número fixo de fios. O tamanho do motivo depende, por isso, da densidade do tecido: o mesmo esquema fica grande numa aida de 14 pontos por polegada e miúdo num linho de 32 fios trabalhado a dois fios. Antes de começar, compensa contar as casas do esquema, multiplicar pela densidade e confirmar que o resultado cabe no tecido com margem para a montagem.
Trabalha-se com agulha de ponta romba, que separa os fios em vez de os furar, e todos os pontos superiores devem cruzar no mesmo sentido para a superfície reflectir a luz de forma uniforme.
Livre: o desenho decide o caminho
No bordado livre, a agulha entra onde o traço pede. O tecido pode ser liso — algodão, linho, seda, lã — e a linha segue contornos, preenchimentos e curvas sem contagem. Aqui a agulha é de ponta afiada e a atenção passa para a direcção dos pontos: é ela que faz uma pétala parecer curva ou chata.
É prática corrente começar pelos contornos, definir os limites do desenho e só depois preencher, para que os preenchimentos não avancem sobre o traço original.
Pontos de base e o que cada um resolve
Três pontos cobrem grande parte do trabalho corrente: um para preencher, um para desenhar linhas, um para marcar pequenos volumes. Dominados estes, os restantes aprendem-se como variações.
Ponto cheio e o setim por baixo
O ponto cheio, ou ponto de cetim, cobre uma área com pontos paralelos encostados uns aos outros. O brilho que se lhe atribui vem menos da linha do que da regularidade: pontos com o mesmo ângulo, sem torção e sem folga entre eles. Em áreas largas, o fio tende a afundar e a superfície fica irregular.
A solução tradicional é preparar um setim por baixo: contornar a forma com ponto atrás ou ponto dividido e preencher o interior com pontos rectos numa direcção perpendicular à do acabamento. Esse enchimento levanta ligeiramente a superfície, dá-lhe um bordo definido e faz com que o ponto final assente sobre uma base estável em vez de assentar no tecido.
Ponto de haste
Serve para contornos, caules e qualquer linha que deva parecer contínua. Cada ponto avança sobre o traço e volta a entrar a meio do anterior, com a linha sempre mantida do mesmo lado da agulha — abaixo ou acima, mas sem trocar a meio, sob pena de a torção se inverter e a linha ganhar um degrau visível. Em curvas apertadas, pontos mais curtos acompanham melhor o traço do que um aumento de tensão.
Nós franceses
O nó francês faz-se enrolando a linha uma ou duas vezes à volta da agulha, mantendo-a tensa com a mão livre e voltando a entrar no tecido muito perto do ponto de saída — perto, mas nunca no mesmo furo, ou o nó passa para o avesso. O tamanho controla-se pelo número de fios e pelo número de voltas, não por voltas a mais, que só tornam o nó mole. Com o tecido bem esticado num bastidor, as duas mãos ficam livres e o nó sai regular com muito mais facilidade.
Passar o desenho para o tecido
Transferir o traço é um passo curto com consequências longas: um risco que não sai depois da lavagem acompanha a peça para sempre. Vale a pena testar sempre o método numa sobra do mesmo tecido, bordar por cima e lavar essa amostra antes de o aplicar no trabalho verdadeiro.
- Mesa de luz ou vidro de janela — para algodões e linhos claros: o desenho colocado por baixo vê-se em transparência e copia-se com lápis de grafite duro ou marcador próprio, com traço fino, que fica coberto pelos pontos.
- Papel hidrossolúvel — para tecidos escuros, grossos ou com textura: o desenho é impresso ou copiado no papel, alinhavado ou colado sobre o tecido, bordado por cima e dissolvido em água no fim.
- Picotar e polvilhar — o método antigo do risco picotado com agulha e do pó de giz ou carvão passado com um rolo de feltro; deixa uma linha pontilhada que se fixa depois com traço leve. Continua a ser o mais fiável em sedas e em superfícies que não se podem molhar.
- Alinhavo do contorno — para veludo, lã e malhas, onde nenhum traço se aguenta: o desenho em papel fino é alinhavado com linha de cor contrastante e o papel rasgado com cuidado antes de bordar.
Se o tecido for lavado antes do bordado, o encolhimento acontece antes da transferência — e não depois, quando já não há como corrigir o desenho.
Linhas: mouliné, lã e fio metalizado
O mouliné de algodão vende-se em meadas de seis fios frouxamente torcidos. Trabalhar com a meada inteira é raro: separam-se os fios um a um e voltam a juntar-se no número desejado, gesto que desfaz a torção acumulada e faz com que os pontos assentem lado a lado sem cordão visível. Dois fios servem para preenchimentos correntes, um fio para detalhes e sombreados, três ou mais para linhas com corpo.
O comprimento também conta. Linhas acima de 45 cm passam demasiadas vezes pelo tecido, desgastam-se e chegam ao fim baças e desfiadas. Em lã, esse limite é ainda mais curto, porque a fibra é mais frágil ao atrito.
Lã
A lã de bordar dá volume e um mate que o algodão não tem, e pede uma agulha com olho largo para não a comprimir na passagem. Em linho encorpado ou em sarja de algodão, resolve bem preenchimentos grandes com textura. Como marca o tecido ao ser puxada, convém trabalhar com movimentos curtos e conferir o avesso de vez em quando.
Fio metalizado
O fio metalizado comporta-se de forma diferente de qualquer fio têxtil: é rígido, abrasivo e não gosta de atravessar o tecido muitas vezes. Usam-se comprimentos curtos, agulha de olho maior para abrir caminho ao fio, e — quando o fio é grosso ou frágil — fixa-se à superfície com ponto deitado, ou seja, assente sobre o tecido e preso de distância em distância por uma linha fina da mesma cor. Passar a linha por cera de abelha reduz o atrito e ajuda a controlar a torção.
Bordado a ouro e trabalho com canutilho
O bordado a ouro trabalha quase sempre por cima do tecido: os fios metálicos não atravessam a trama, ficam assentes à superfície e são presos por uma linha fina, cosida em intervalos regulares. A peça monta-se num quadro de tensão, porque qualquer folga do fundo faz com que o metal deixe de assentar direito e comece a abrir.
Canutilho
O canutilho é um fio metálico enrolado em mola, oco por dentro, que se corta em pedaços e se cose como se fossem contas: a agulha entra pelo interior da espiral e o pedaço fica fixo entre os dois pontos de entrada e saída. O corte faz-se sobre uma almofada de veludo ou camurça, que impede os pedaços de saltar, com uma tesoura reservada só para metal — cortar canutilho estraga o gume de qualquer tesoura de tecido.
Relevo e manuseamento
O volume obtém-se com camadas de feltro cortadas em tamanhos crescentes, cosidas ao tecido antes do metal, ou com enchimento de linha grossa assente na direcção contrária à da cobertura. Sobre essa base, o fio metálico ganha uma curva contínua em vez de uma superfície plana.
O metal reage ao suor e à gordura das mãos. Trabalhar com as mãos lavadas e secas, apoiar o braço num pano limpo e cobrir a parte terminada enquanto se borda o resto são cuidados simples que evitam manchas impossíveis de tirar mais tarde. Estas peças raramente se lavam: limpam-se, se necessário, só na zona afectada e com muita contenção.
Lavar e apresentar a peça acabada
Depois do último ponto, o trabalho ainda tem marcas do bastidor, restos de traço e alguma sujidade das mãos. A lavagem é o passo que devolve o tecido ao plano — e o que mais estragos causa quando é feito à pressa.
Antes e durante a lavagem
- Testar a solidez das cores: humedecer um resto de cada linha usada, pousar sobre pano branco e verificar se larga cor.
- Rematar e aparar todas as pontas no avesso; fios soltos enredam-se dentro de água.
- Usar água morna, nunca quente, e sabão neutro sem branqueadores ópticos nem enzimas.
- Mergulhar e premir suavemente, sem esfregar e sem torcer.
- Enxaguar até a água sair limpa, incluindo os vestígios de papel hidrossolúvel ou de marcador.
- Retirar a água enrolando a peça numa toalha, sem a espremer.
Esticar, passar e montar
Enquanto húmida, a peça estica-se sobre uma superfície forrada e prende-se pelas margens com alfinetes inoxidáveis, alinhando os fios do tecido com os lados do rectângulo. Seca assim, plana, sem precisar de ferro. Se for necessário passar a ferro, faz-se pelo avesso, sobre uma toalha dobrada, para que os pontos assentem no tecido macio e não sejam esmagados — e nunca directamente sobre fios metálicos.
Para emoldurar, o bordado prende-se a um cartão neutro com fio cruzado pelas costas, em vez de cola ou de placas adesivas, que amarelecem e são irreversíveis. Entre o vidro e a superfície bordada deve haver sempre um espaço, para que os pontos não fiquem comprimidos contra o vidro.
Guardar linhas, tecidos e trabalhos a meio
Em boa parte do país, sobretudo perto da costa, a humidade do ar é o principal problema de arrumação: bolores em tecidos guardados em caixas fechadas, agulhas com pontos de ferrugem, linhas que ganham cheiro. Um armário interior, arejado e longe de janelas viradas a sul resolve mais do que qualquer recipiente caro.
A luz directa é o segundo inimigo: desbota linhas tingidas em poucos meses de exposição. Tecidos e meadas devem ficar fechados, e peças acabadas nunca expostas a sol directo.
Rotinas simples
- Anotar o número da cor antes de cortar a etiqueta da meada; sem esse número, repetir um tom é quase impossível.
- Enrolar as linhas em cartões ou argolas próprias, sem elásticos nem molas metálicas, que marcam e oxidam.
- Guardar tecidos enrolados em vez de dobrados, para não fixar vincos ao longo dos anos.
- Envolver peças acabadas em papel de seda sem ácido, dentro de caixa de cartão neutro.
- Manter agulhas e tesouras secas, longe de alfineteiras húmidas ou cheias de areia.
- Tirar sempre os trabalhos a meio do bastidor e guardá-los planos, entre panos de algodão limpos.
Vale ainda a pena guardar as sobras de tecido de cada projecto junto das linhas correspondentes: servem para testar transferências, solidez de cores e pontos novos sem arriscar a peça que está em curso.
Contacto
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O correio electrónico é a única forma de contacto do projecto. O Sesteza não vende materiais, não dá formação e não recebe encomendas.